Sherlock Holmes e a Lógica Dedutiva

“Sherlock Holmes”, do diretor Guy Ritchie, estrelado por Robert Downey Jr. e Jude Law, é filme que recomendo a todos que apreciam produções que conseguem misturar ação, suspense, personagens envolventes, contexto histórico, literatura clássica… Pessoalmente gosto muito do personagem central, que me acompanhou durante a adolescência como um de meus detetives preferidos ao lado do também clássico Hercule Poirot, de Agatha Christie.

Holmes, criação genial de Arthur Conan Doyle, ganhou nova caracterização, distinção e personalidade com Downey Jr., ator talentoso, que foi, inclusive, premiado com o Globo de Ouro por esta interpretação. Deixou de ser frio e distante, calculista e objetivo, para ser mais irônico, humano, envolvido com o mundo ao seu redor sem deixar de ser dotado de incrível inteligência pautada em lógica dedutiva jamais percebida em qualquer outro personagem da literatura.

Seu parceiro, Dr. Watson, em competente atuação de Jude Law, ganha enlevo na trama, deixando de ser o eterno parceiro disciplinado a acompanhar Holmes e ajudá-lo em suas aventuras para se tornar elemento ativo e altivo na trama, demonstrando personalidade, presença e capacidade de agir por conta própria, o que o leva inclusive a, em determinados momentos do filme, contrariar Sherlock e mostrar suas opiniões e vontades.

A despeito de várias qualidades e de eventuais defeitos do filme, o que mais me agradou e envolveu foi voltar a ver o famoso detetive inglês utilizando a lógica dedutiva como principal recurso para solucionar as situações que tinha pela frente, desde as mais simples até as mais complicadas, na medida em que a trama avança. Sem deixar de destacar o importante papel que a ciência e a experimentação têm em sua vida, ou seja, como elementos que dão aos homens a possibilidade de realmente entender o mundo em que vivem.

Tudo a ver, é lógico, com o contexto em que Sir Arthur Conan Doyle criou estes personagens, a Inglaterra e o mundo do século XIX, em plena 2ª fase da Revolução Industrial e total valorização da ciência e da tecnologia em desenvolvimento. Época que, por sinal, é bem caracterizada no filme, marcado por tons escuros, ruas sujas e apertadas, pessoas vagando pelos becos em busca de oportunidades para ganhar dinheiro, gente descuidada e sem maiores preocupações com a higiene, indústrias soltando muita fumaça nos céus… Tudo muito opressor aos nossos olhos de 3º Milênio, acostumados com uma visão ‘clean‘, hermética, com tudo no seu devido lugar…

Agora, voltando a lógica dedutiva, o que seduz os espectadores e leitores de Sherlock Holmes é perceber como o personagem é capaz de focar tão rapidamente em detalhes de contexto (coisas como uma pequena mancha de tinta na camisa, um pouco de pó de giz no sobretudo, a cor da terra que cobre levemente os sapatos de alguém e outras coisas do gênero) e ser capaz de relacionar, por meio daquilo que hoje chamamos de sinapses, com outros conhecimentos por ele adquiridos anteriormente, para decifrar enigmas, mistérios e os crimes que tem pela frente…

Sherlock utiliza a lógica, ou seja, a capacidade de pensar racionalmente as situações, fatos ou acontecimentos e buscar explicações plausíveis e aceitáveis para as mesmas de acordo com critérios de pensamento que tornem tal compreensão aceitável aos olhos da maior parte das pessoas. À lógica, o personagem adiciona a dedução, que por sua vez seria a habilidade de conectar dados coletados quanto ao que se está estudando a toda uma gama de informações e saberes previamente conhecidos e ainda concretizar a aproximação de todos estes elementos para chegar as respostas procuradas. Essa forma de pensar e agir é o que caracteriza e torna Sherlock Holmes um personagem único, especial e tão querido entre leitores e, também, cinéfilos.

De certa forma, Sherlock Holmes encarna aquilo que muitos cientistas e realizadores tanto almejam atingir em sua busca por computadores, redes, sistemas e até mesmo com a inteligência artificial… A capacidade de armazenar dados, realizar fusões entre os mesmos a qualquer momento e de acordo com cada situação e contexto e, ainda, contar com a maleabilidade humana e sua incrível capacidade de adaptação e criatividade para conseguir, dessa forma, as melhores e mais confiáveis respostas possíveis… É, Conan Doyle era um sujeito muito além de seu tempo, não é mesmo?

Por João Luís de Almeida Machado

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