Mafalda e as questões de Enem e Vestibulares

Quando do nascimento da Mafalda, na ebulição dos anos 1960, o mundo vivia fortes emoções: a Guerra Fria, a contracultura, a primavera de praga, a ditadura militar no Brasil (e, logo depois, em outras nações latino-americanas), a Revolução Cubana, Woodstock, os Beatles, o feminismo e seus sutiãs sendo queimados em praça pública…

E na Argentina, o cartunista Quino fez surgir essa menininha de cabelos e olhos escuros, crítica e atenta as questões do mundo ao seu redor, que em 2 ou 3 quadrinhos, semanalmente, durante cerca de 9 anos, se posicionava em relação a temas tão espinhosos quanto as armas atômicas, a questão ambiental, os diretos das mulheres, a ditadura política, as desigualdades econômicas, a conformidade das pessoas diante das injustiças sociais…

Seus quadrinhos que ganharam espaço em jornais portenhos foram, aos poucos, sendo exportados para outras nações, ganhando versões em inglês, português, italiano, alemão, japonês e tantas outras línguas. Mafalda, em suas tiras, trabalhava temas de interesse e alcance global, sua linguagem desde o princípio era mundial e, ao mesmo tempo, atemporal.

Quino, falecido aos 88 anos, em setembro de 2020, parou de publicar tiras da Mafalda e de sua turma em 1973, segundo uma primeira versão do próprio autor, por pensar que iria se tornar repetitivo em novas histórias, discutindo sempre os Quino, falecido aos 88 anos, em setembro de 2020, parou de publicar tiras da Mafalda e de sua turma em 1973, segundo uma primeira versão do próprio autor, por pensar que iria se tornar repetitivo em novas histórias, discutindo sempre os mesmos temas, pouco ou nada acrescentando de novo. Anos depois, já na virada para os anos 1990, em entrevista, o criador da Mafalda revelou que sua principal motivação era garantir a própria vida, tendo em vista a ascensão de governos militares repressivos na Argentina, que poderiam se sentir contrariados pela menininha atrevida das tiras do cartunista.

Enem 2013

Tira-da-Mafalda-no-ENEM-2013

A inspiração nos traços de Mafalda e de sua turma, de acordo com o criador das tiras, veio da turma do Snoopy e Charlie Brown, criados por Bob Schulz, outro clássico das histórias em quadrinhos e tiras publicadas em jornais. No entanto, diferentemente dessa inspiração para os traços, cujas tiras e histórias são mais introspectivas e reflexivas quanto a existência humana, Mafalda traz questões amplas, abertas, com preocupação social.

Mafalda também é comparada, por vezes, ao trabalho do brasileiro Maurício de Sousa, com a Turma da Mônica, que diferentemente da hermana argentina, apesar de engajar em campanhas de conscientização pública, não tem a mesma criticidade, atendo-se a histórias que tem um contexto mais localizado, focado no universo infantil em que vivem seus personagens.

Mafalda, apesar das tiras terem sido produzidas somente até 1973, com algumas exceções, relacionadas a ações de Quino juntamente a organizações internacionais como a Unesco ou a causas como o feminismo na Argentina,  é recorrente em questões de vestibulares e também no Enem.

Tiras publicadas em jornais, assim como Charges, são elementos que permitem a comunicação visual rápida, que desperta a atenção dos leitores, veiculando informações de modo cômico que, associado a questões de interesse social ou econômico, podem ser motes para redações ou perguntas bem estruturadas e associadas a outros textos e autores, em especial, em relação a humanidades e linguagens.

Enem 2010

Tira-da-Mafalda-no-Enem-2010

Outro aspecto pelo qual tiras da Mafalda podem ser exploradas está relacionado a língua espanhola ou a temas que tem entrada e alcance nas ciências naturais, como por exemplo, em questões associadas a questão ambiental, explorando as alterações climáticas, a produção de alimentos ou a ameaça de extinção de espécies.

De qualquer forma é sempre bom resgatar o assunto, pois a menininha argentina continuará firme e forte em provas que serão criadas, tendo em vista a perenidade dos temas que aborda em suas histórias. E não é somente ela que, com sua criticidade e posicionamentos fortes nos faz pensar os temas trazidos por Quino nas tirinhas. Susanita, por exemplo, é o contraexemplo de Mafalda, pois retrata as pessoas alienadas, incapazes de observar e entender o que se passa ao seu redor, pois estão muito centradas em suas próprias existências, num contexto mais burguês ou capitalista de existência. Manolito, por sua vez, encarnando o filho do dono do armazém, traz o discurso do dono dos meios de produção, ou seja, de quem defende com afinco o lucro e só consegue ver os benefícios do sistema capitalista. Há também o Filipe, o pai e a mãe de Mafalda, Guille (o irmão caçula da personagem principal) e, todos eles, em diferentes momentos, abrem espaço para discussões interessantes, com fundo filosófico ou existencial, sobre o mundo em que vivemos.

Ao longo desse artigo apresentamos algumas tiras da Mafalda que foram tema de questões do Enem para que vocês vejam como ela já esteve presente em algumas edições da prova, desde os primórdios dessa grande avaliação nacional.

Enem 2004

Tira-da-Mafalda-no-Enem-2004

O importante, de qualquer forma, ao pensarmos em Mafalda, é que o espírito crítico que emana das tiras de Quino, seja estudado e continue sendo inspiração para reflexão por meio de questões do Enem e dos vestibulares. Por isso mesmo, destacamos que a prática de uso de diferentes recursos lúdicos ou textuais para compor questões, como as tiras, histórias em quadrinhos ou charges, é algo regular e inerente aos exames de admissão as universidades brasileiras desde os anos 1970. Estudar e se preparar para um diálogo franco, aberto e reflexivo com Mafalda e outros personagens (Turma da Mônica, Calvin e Haroldo, Hagar, Garfield…) é algo que deve ser trabalhado na preparação para o Enem e vestibulares, seja em linguagens e códigos, humanidades ou nas demais áreas do conhecimento.

Por João Luís de Almeida Machado