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Híbrido: o novo normal na educação

A integração das tecnologias digitais na educação precisa ser feita de modo criativo e crítico, buscando desenvolver a autonomia e a reflexão dos seus envolvidos, para que eles não sejam apenas receptores de informações. O projeto político-pedagógico da escola que queira abarcar essas questões precisa ponderar como fazer essa integração das tecnologias digitais para que os alunos possam aprender significativamente em um novo ambiente, que agora contempla o presencial e o digital.” (Lilian Bacich, Adolfo Tanzi Neto e Fernando Trevisani, no artigo “Ensino Híbrido – Personalização e tecnologia na educação”, capítulo 2 do livro de mesmo título)

Quando surgiram os primeiros veículos flex, capazes de utilizar 2 combustíveis, a gasolina e o etanol, a inovação foi considerada um grande avanço e permitiu aos usuários optar por maior potência, menor custo final ao abastecer seu veículo ou, mesmo, se iriam utilizar combustível menos poluente (no caso, o etanol). Isso aconteceu em 2003 e, por mais que pensemos como algo que sempre esteve disponível ou, ao menos, que já existisse há mais tempo, incorporou-se rapidamente ao cotidiano e a cultura das pessoas que usam veículos. O próximo passo foi o desenvolvimento de uma nova tecnologia, aquela que está colocando no mercado os chamados veículos híbridos. E qual a diferença entre híbridos e flex? Enquanto os modelos flex oferecem ao usuário optar entre gasolina e etanol, os carros híbridos trabalham com 2 tipos de motores diferentes, que se alternam de acordo com o que seja melhor para o desempenho do veículo, usando motores elétricos e de combustão. Caso o veículo esteja em velocidade menor, num espaço mais urbano, a opção pode ser pelo motor elétrico, menos poluente e mais econômico. Se o carro precisar de mais potência e velocidade, numa rodovia, por exemplo, a alternância para o motor a combustão pode ocorrer. De qualquer modo, nessa nova tecnologia que surge, dentro do modelo híbrido, há benefícios comparáveis aos que os motores flex permitiram, apenas que dentro de outro sistema operacional e com ganhos ainda maiores se comparados ao padrão anterior.

Quando transitamos de uma realidade ou contexto para outra, é necessário que ocorra uma adaptação cultural, que pode ser rápida, simples e fácil, como aconteceu no caso dos motores, transitando dos modelos exclusivamente a combustão, ainda que melhorados para trabalhar com 2 tipos de combustíveis, para os carros híbridos, em que há dois tipos de motores alternando-se de forma “inteligente” para que o veículo possa se locomover, ou um pouco mais difícil, quando pensamos, por exemplo, nas mudanças que estão ocorrendo desde o final dos anos 1990, com o advento das novas tecnologias ao cenário educacional.

Na educação, como em outras áreas da ação humana, em que há planos, práticas e pensamentos arraigados sobre como devem ser operacionalizadas as ações e, em que, a despeito do que se possa pensar, ainda há a prevalência de formas de pensar e agir conservadoras, apesar de poucos admitirem ou aceitarem essa pecha, o processo é mais lento. “Mudar a chavinha”, ou seja, modificar o pensamento vigente é algo que está em curso desde que os primeiros computadores foram trazidos para o contexto das salas de aula, inicialmente em laboratórios herméticos de informática, sem muita ligação com o que estava acontecendo na aula de matemática, na sala ao lado…

O híbrido, hoje, também é algo pensado e proposto para a educação, mas conforme afirmamos e podemos constatar ao longo de quase 2 décadas de trabalho na área de educação e tecnologia, ocorre num tempo muito próprio, mais lento, do que em outras áreas de atuação humana, como ocorreu com o mercado financeiro, a indústria ou mesmo, a agricultura e a pecuária, nas quais a introdução das tecnologias, para melhorar a produtividade e os processos de gestão, foi sendo incorporada muito mais rapidamente.

O advento da pandemia da Covid-19, no entanto, com o isolamento social em praticamente todos os países e o fechamento das escolas, levando milhões de alunos a ficar sem aulas ou tendo que estudar online, acelerou a adoção de tecnologias como base para o ensino e a aprendizagem. De repente, o mundo migrou para um modelo essencialmente realizado por intermediação de computadores, com informações e dados sendo levados de um lado para o outro por meio da internet.

Esse é um momento ímpar no que se refere a transição para o modelo híbrido, pois está levando escolas, educadores, sociedade em geral, governos e estudantes a repensar a forma com a educação deve acontecer. Todos estão aprendendo a se organizar, gerir e realizar ações dentro de um novo modelo que, nesse momento de pandemia, é essencialmente virtual, portanto, ainda não se configura como o modelo híbrido esperado pelos especialistas como aquele que irá se estabelecer no pós-crise do Coronavírus.

Os aprendizados estão em ritmo acelerado, para não dizer, alucinado em certos casos. Não dá mais para protelar o uso de computadores, tablets ou smartphones e de salas de aula virtuais turbinadas por recursos multimídia e plataformas de aprendizagem personalizadas, gamificadas, capazes de detectar dificuldades, erros e gerar dados para todos os usuários interessados, quando não, ainda, conectados a sistemas de inteligência artificial, que podem dinamizar e melhorar mais os processos e resultados. Todos estão aprendendo, não apenas os estudantes, talvez, até mais, os educadores e gestores das escolas, as autoridades públicas e os pesquisadores da área, a sociedade e o estado.

O que se configura, a curto e médio prazo, quando findar a crise sanitária e de saúde que impôs a todos desde os primeiros meses de 2020, com a Covid-19, é o estabelecimento de um modelo híbrido que irá mesclar o presencial e o virtual naquilo que oferecem de melhor, em momentos distintos ou ao mesmo tempo, com professores e estudantes acessando as redes, tanto nas ações presenciais quanto naquelas em que estiverem à distância, onde quer que estejam e em qualquer momento do dia que lhes for mais conveniente.

Nesse sentido, a adoção das novas tecnologias será mais fácil para quem já desenvolveu experiências e ações, planejou e atuou no sentido de ocasionar o híbrido antes da pandemia. Quem já estava organizando e realizando aulas online – síncronas ou assíncronas, profissionais e empreendimentos que organizaram estruturas através das quais disponibilizaram recursos para professores e estudantes, startups ou escolas que criaram ações online usando vídeos, podcasts, games educacionais, webquests, recursos online para a produção de provas, ferramentas para a criação e correção de avaliações na web… Nesse sentido, por exemplo, os 7 anos de experiência do Me Salva! na organização de cursos online, com milhões de usuários já tendo experimentado e aprovado seus materiais, tendo realizado simulados ou redações online com feedback profissional rápido, podendo organizar-se por meio de planos de estudo na plataforma, constituem demonstrativo do que hoje se espera das escolas e de seus profissionais.

Unir experiências, como o que o Me Salva! realiza, com as ações presenciais das escolas, num modelo que, como os motores híbridos, permite desempenho superior, contando com o que de melhor for possível extrair do trabalho no espaço escolar com o que se oferece online, de forma concatenada, planejada, que oriente e desafie os alunos, constitui iniciativa híbrida na educação, reforçada por aulas invertidas, reforço escolar em contraturno, momentos para tirar dúvidas ou aprofundar saberes, compartilhar pelas redes o aprendizado com outros alunos, ter acesso a diferentes formas de explicar um mesmo conteúdo e, de quebra, ter rápido retorno dos resultados obtidos online, para respaldar as ações presenciais, é algo de grande valor e que revela, no horizonte da educação, o que está apenas começando, nesse novo normal que se configura…

Por João Luís de Almeida Machado